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Seis microcontos para um rei

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Está sempre bronzeado porque é o rei da praia. Mas se trabalha tanto, como? Se vem somente aos domingos, então como? E nada. É puro privilégio de rei em splash e sunga azul escura. Nem precisa correr da areia quente, nem guarda-sol ele usa. Reluz de nascimento, ela pensa, ele passa.

 

Braço, abraço, braço, abraço, braço, abraço; olhos fechados porque não usa óculos nem debaixo d’água. Nasceu anfíbio e uma certa tormenta segue seu rastro até o horizonte e de volta, algum motor ritmado escondido por trás do umbigo de bronze.

 

Mal termina, ele se vira de lado. Ela checa se o carro está mesmo freado, aproxima o rosto para ouvir se ele ronca (mas nem depois de tudo e tanto).  Lá fora, o escuro, e dentro dele, sono, e dentro dela, o escuro também. Então fecha os olhos. E nada. Vira de lado, vira de outro, vira de lado e tem vontade de gritar vitória janela afora com ele ao seu lado, mas só a noite e os grilos escutam, e os olhos dele virando dentro das pálpebras.

Ela abre a porta e avança com todo cuidado para dentro da noite. Entre os dedos dos pés, passa a areia dos sonhos.

 

Sentada ao lado dele, ela percebe: tantos dentes no sorriso, o umbigo muito escuro por trás da armadura de bronze e no fundo a certeza de que o mundo é simples e nada se esconde debaixo do calor dos zilhões de grãos de areia. Ela escuta enquanto enfia mais e mais os pés em busca de algo úmido. Os dedos são uma família de lesmas cálidas e eriçadas avançando para o fundo. Beijo na nuca e ele segue para a água. Braço, abraço, braço, abraço, braço, abraço.

 

Ele explica. Ele gosta muito de explicar e ela tenta entender como se nada, mas o ouvido vai ficando cheio de mar e as palavras-escafandro roncam nos tímpanos. Ela sorri porque tem vontade de mordê-lo  inteirinho, mas não entende. Ele é abraço e manobra o corpo dela como se fosse.

Tá vendo, faz assim ó, é fácil.

 

Nenhum homem, nem mão, nem braço ou abraço naquele mar no dia em que ela não morreu. Virou, o barco, lá perto daquele horizonte, bem no caminho da ilha, mais longe do que se pensa. Ela tenta contar, mas ele tem outros assuntos. Explica tudo e ela olha para longe, como se nada. No fundo da água, a nuvem de areia escura cobre seus pés.

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Eles não podem te ver fazendo isso

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Lembro bem do primeiro dia e da palestra na sala de diretores, onde um garçom veio servir pratos elaborados demais para mimar os novos integrantes do time na hora do almoço. Eu era um deles. Queria ter saído da sala junto com os pratos sujos quando um dos chefes apontou o cartaz com imagens ultra coloridas dizendo: vendemos sonhos. Aquilo fez a mousse de limão e o bife voltarem misturados até a base da garganta. Ninguém vende sonhos. Imaginei o homem vendendo sonhos com aquela mesma gravata borboleta num balcão de padaria, o creme escorrendo na bandeja de alumínio e ele sendo obrigado a limpar às pressas. Tive vontade de rir, mas não ri. Ninguém ria.

Lá embaixo, no o pátio do edifício, eu podia ver os postes de iluminação encimados por bolas de acrílico. Pareciam pirulitos e eu pensei que aquilo tinha a ver com a coisa toda dos sonhos, da padaria e da gravata borboleta. Pensei em empapelar os pirulitos com crepom. Pensei também naquele menino do filme dentro de uma fábrica de chocolates, onde tudo é feito de chocolate e as pessoas só pensam em chocolate e até os rios são feitos de chocolate. Só que eu não era mais menina. Eu tinha 21 anos e a empresa não vendia chocolates.

As mulheres eram tão arrumadas naquele andar que eu me sentia uma criança vestida com roupas engomadas de batizado. As minhas eu tinha comprado às pressas para substituir o guarda-roupas usado na faculdade do interior onde dava para usar chinelos todos os dias, a não ser em junho, mas aí as aulas já estavam por terminar. Lembrei da poeira subindo no terreno vazio atrás da faculdade e das corujas fazendo voos rasantes junto aos carros no estacionamento. Nada de corujas por ali, só os urubus vindos do lodo da Marginal Pinheiros. Eles gostavam de pousar nas antenas e ficavam olhando para nós. Mesmo para os diretores eles olhavam.

Fiquei aliviada quando me levaram para trabalhar na área de tecnologia. Ali quase não havia mulheres e ninguém reparava no que os outros vestiam. Os homens deixavam o paletó no espaldar das cadeiras de um dia para outro, na esperança do chefe não notar se eles chegassem atrasados no dia seguinte, então o escritório parecia um depósito de homens invisíveis e silenciosos quando eu chegava de manhã. Seu paletó chegou cedo hoje, eu costumava dizer.

E havia a Lúcia. Ela tinha olhos enormes e muito escuros. Era mãe de três filhos. Sei disso porque as pessoas, ou seja, os homens, comentavam. Era um jeito delicado deles avisarem uns aos outros que ela era casada. Todo mundo queria comer a Lúcia, mas ninguém conseguiu. Ela era muito boa em não notar nada e sorrir sempre. Além disso, era ótima programadora. Eu sentia um certo orgulho da existência dela. Tinha estudado muita matemática na faculdade, mas aquilo para mim tinha sido a preparação para uma maratona que eu nunca ia correr. E não corri mesmo. Eu resfolegava diante dos cálculos integrais e das projeções que cobriam a lousa do professor pernambucano. Ele era alto, gordo e transpirava muito enquanto desenhava aquelas curvas poéticas de oferta e demanda tendendo ao infinito. As curvas criavam fórmulas, e as fórmulas escondiam algum tipo de Deus das verdades econômicas passadas e futuras.

Eu gostava de trabalhar com a Lúcia. Ela não pensava na poética das curvas. Ela estava ali para fazer o trabalho dela e ponto. A Lúcia não reparava nos paletós nem nos olhares dos homens. Era expert em desenho de interfaces, o que significava que ela sabia escutar as pessoas e transformar aquilo em desenhos, e dos desenhos criar fórmulas, e das fórmulas criar programas que então submergiam dentro dos computadores até serem esquecidos. Os programas eram um pouco como os paletós sobre as cadeiras. Eles agiam de forma invisível e dominavam todo o pensamento da empresa.

Eram quatro enormes pilares quadrados de concreto fazendo esquinas entre as milhares de placas de vidro fumé. Seis andares por torre, seis torres olhando umas para as outras e os pirulitos no pátio central adornando os caminhos por onde ninguém andava, só os fumantes, e mesmo eles preferiam ficar à sombra dos prédios. Nenhuma árvore no jardim, assim ninguém ficaria preguiçoso debaixo delas depois do almoço como eu teimava em fazer, cruzando o estacionamento e descendo parte da rampa com vista para a Marginal. Ali tinha uma árvore. O cheiro não era bom, mas não se pode ter tudo.

Meu trabalho com a Lúcia parecia importante. A gente tinha que transformar em sistema as análises do diretor financeiro, porque ele logo ia se aposentar e ninguém fazia análises como ele. Era um velho muito velho mesmo e para chegar até ele, atravessei pela primeira vez o corredor semi escurecido da diretoria. Não sei porque isso, mas no começo dos anos 90 era chique ter esses corredores semi escurecidos e colocar vidros fumé nas janelas.

A Lúcia usava uma saia justa, cinza e correta e mesmo assim ficava com a bunda bem redondinha. Eu segui aquela bunda até a ante-sala do diretor financeiro, onde deveríamos aguardar. Eram 4 secretárias dentro de estações quadradas muito maiores do que o espaço ocupado por qualquer pessoa do departamento de tecnologia. Elas tinham impressoras, computadores modernos sem aquela tela verde horrível do laboratório da faculdade e o balcão de madeira escura dava a volta completa em torno delas formando uma espécie de prisão onde as quatro senhoras exerciam o poder de definir quem sim e quem não, quando sim e quando não. Pareciam contentes com aquilo. Para sair, levantavam um trecho do balcão que tinha uma dobradiça invisível, liberando uma passagem até então oculta. Observei a mulher fazer isso para ir falar com o diretor. Pediu para aguardarmos ainda um pouco mais.

Nos anos 90, a gente não tinha celular, então conversava com a pessoa ao lado mesmo. Quando cansei de saber das peripécias dos filhos da Lúcia, disse que ia ao banheiro e voltei até a entrada da ala da diretoria só para entrar de novo, caminhando de forma solene como se vestisse longo. O corredor devia ter uns dez metros e, no fundo dele, tinham colocado um tacho de cobre com uma gigantesca colher, o conjunto iluminado por uma lâmpada direcional. Passei pelo anexo do corredor (foi o único corredor com anexo que eu vi na vida) e ali encontrei uma mesa montada com centenas de figuras do Mestre Vitalino. Burricos, padres, noivas, vacas. Eles tinham aprisionado o Brasil, aqueles ingleses. Era meio deprimente pra os bois, o pequenos músicos, as pontes, os jegues e eu. Não podia pôr a mão. Nem ali e nem no tacho, mas eu punha. Só a senhora do café viu quando passou por mim com seu carrinho barulhento. Eles não podem te ver fazendo isso! E eu tirei a mão, fazendo uma cara de assustada com a boca bem aberta e selando uma solidariedade de sorrisos simulados e caras de susto que trocaríamos pelos corredores da empresa nos anos que passei ali. Eram muitos corredores.

A Lúcia entrou na frente e cumprimentou o velho. Eu não lembro o nome dele de jeito nenhum. A mesa era enorme e ele escutava mal, dificultando toda a reunião. Ele sabia que escutava mal e gostava de ver como a Lúcia se inclinava na direção dele para fazer a voz chegar. Ele podia estar fingindo. Ele gostava da Lúcia, dava para ver, e queria que ela voltasse.

Ele não quer explicar como faz os cálculo, ela me explicou na saída. Acho que ele não quer é ir embora, eu disse. É. Pode ser. A Lúcia não se envolvia muito em conversas desse tipo. Ela percebia tudo, mas não queria dizer. Estava preocupada era com o prazo e sorriu para mim perguntando se íamos cumprir. Eu disse que sim, íamos dar um jeito. Queria mostrar para eles que a gente conseguia.

A reunião seguinte também não serviu pra nada. Ele falou muito, mostrando papéis impressos entregues na última hora pela secretária. O velho não gostou do atraso dos relatórios trazidos por ela e enrugou a testa, demonstrando todos os anos de preocupação com os milhões ganhos pela empresa. Eu anotei um monte de coisas no meu caderninho, mas ele era só uma pranchinha de isopor em meio ao mar de planilhas, relatórios e folhas perfuradas. Eu imaginava aqueles quilômetros de folhas enroladas como um cachecol em torno de cada um dos seis prédios e os pirulitos dançando com seus postes moles, suas esferas encimadas por perucas de crepon; isso bem à noite, quando nem os fumantes estavam por ali. Eu ficava pensando essas coisas, depois voltava e continuava anotando.

O velho estava nervoso. Ele sempre ficava um pouco nervoso quando a Lúcia chegava, nem era segredo nem nada, todo mundo do departamento sabia. Mas nesse dia ele tentou aliviar o stress destruindo um clipes com as mãos enrugadas e cheias de veias. Ele contorceu o metal para frente e para trás, para frente e para trás enquanto falava, até o clipes voar na direção da Lúcia. Ela se protegeu com a folha sulfite, dizendo calma, senhor D.! Todos rimos. Ele nunca ia conseguir se concentrar perto dela.

Fomos chamadas na sala do diretor de tecnologia para contar como a coisa andava. Ele disse: não tem jeito, ele precisa ser ouvido. E foi aí que eu comecei com as canetinhas e os desenhos, foi então que me ofereci para ir sozinha, deixando a Lucia chegar só no final. O homem não sentia nada por mim, para meu alívio e aquilo tudo me dava uma certa sensação de dever cumprido e de ser um pouco mais como ela e de afinal me encaixar naquilo tudo. Eu tomava café com a secretária dele, ajudava quando ela não conseguia resolver algum problema no computador e sempre chegava mais cedo, entrava muito devagar pelo corredor, passava pelo anexo, cumprimentava os burricos, as noivas, o padre e depois ficava ali olhando a foto da Dona Gessy logo acima do tacho onde o primeiro sabão tinha sido batido, muito antes dos ingleses. Ela usava saias e chapéu, os operários estavam logo atrás. No pescoço, ela carregava um pingente de guardar segredos daqueles de filme, uma peça de prata com suas iniciais em letras cursivas, um fecho delicado e, do lado oposto, uma dobradiça como aquelas colocadas nas estações de trabalho das secretárias para abrir uma uma saída invisível, só que muito pequena e muito mais delicada.

Concurso de bonecas

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A cada boneca correspondia uma arma. Barbie, em seu carrinho-carruagem, era acompanhada de uma AK47; já sua sósia, a Barbie Equitação, vinha num off road adaptado, trazendo uma Calibre 12 Gauge de caça. A boneca Gui-Gui tinha escolhido uma Magnum e a Bate Palminha preferiu a pequena SW, que se adequava melhor às suas limitações motoras. Lu patinadora trazia sua micro UZI de apenas 25cm de largura, ótima para disparos em movimento. Cada uma ocupava metade de seu carrinho, cedendo a outra metade à arma correspondente.

A fila se estendia por todo o corredor, do saguão até a coxia do teatro. Um homem loiro e alto de camisa azul passava em revista as participantes e fazia anotações em sua prancheta. Fofolete e Feijãozinho foram desclassificadas por não portarem arma alguma.

Tudo teria corrido em plena normalidade se a Boneca Poeminha não tivesse invadido o teatro e acusado o corpo de jurados de comprometimento com interesses econômicos atrelados a algumas das bonecas. Todos imediatamente olharam para Barbie e Barbie Equitação, que, sem um único disparo, deixaram o teatro, muito ofendidas. A boneca Gui-Gui foi declarada vencedora, ainda que corram boatos de impugnação do concurso. Nada confirmado ainda.

Tarde fria sem botões

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Foi bem no dia seguinte à nossa última conversa por telefone. Jurei que nunca mais, eu não precisava daquilo! Xinguei todas as mentiras, os enganos, as traições, acendi uma fogueira no fundo do terreno onde queimei uma boneca antiga, um livro ruim, algumas cartas e uma caixa de fitas coloridas que eu afinal não tinha motivo para usar. A fogueira cuspia chispas em todas as direções. Tive sonhos sinistros.

Ao acordar vesti uma blusa colorida de mangas longas. Uma frente fria havia entrado. Comecei a fechar os botões brancos de cima para baixo até que o quarto caiu, e o quarto era fundamental porque ficava na altura do umbigo. Tirei a blusa imediatamente (não era dia de mostrar o umbigo nem de vestir cores).

Escolhi outra, dessa vez cinza, trespassada e sem botões. Fechei com um cinto e segui para a porta de casa, onde o frio me alcançou. Voltei para buscar um casaco (preto) e ia abrir a porta quando ouvi o ruído de um de seus grandes botões caindo no chão. (Eu não ia me trocar novamente!). Coloquei linha e agulha na bolsa e peguei o ônibus. Ao descer no ponto, notei que a blusa cinza estava aberta e revelava meu umbigo gelado. Uma das peças de couro que prendia o cinto tinha caído, talvez em casa, talvez no ônibus. Cruzei os braços a caminho da livraria (ninguém ia me tirar os braços).

No café, encontro o velho professor com seu chapéu branco. Ganho um abraço de surpresa. Ele lê dois de seus microcontos em voz bem alta e rimos: da falta de grana, das editoras, do café que esfria.

Assisto de longe a reunião dele com o editor, o capista, o escritor-amigo e os cumprimentos dos que o reconhecem. Pelos fones de ouvido entra uma cumbia. Tomo agulha e linha para pregar o botão. Afinal, vai ter conserto.

Duas amigas que trocam ideias geniais sobre o futuro (algo sobre aplicativos e cachorros) sorriem ao me ver tão concentrada.

Já são cinco da tarde e agora sim faz frio.

Pão Velho sobre Fundo Clash

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Afasta a cortina apenas o mínimo para poder observar a rua, mas a amurada que no dia anterior era só um parapeito de apoiar conversas, agora esconde a visão para o nível inferior do predinho: um conjunto habitacional desses que devem ter sido construídos no pós guerra. A casa não é dela e o sofá-cama tem furos que ela descobriu só depois de abri-lo para dormir.

Coloca uma fatia de pão velho para torrar (é o que encontrou na geladeira) e espia de novo para fora, agora tentando aproveitar o ângulo aberto do olho mágico. Os lençóis, ela dobrou e colocou sobre a poltrona junto com o edredon quente demais que abraçou para dormir. A amiga não voltou, parece que não volta tão cedo, ficou com aquele brasileiro de cabelos longos e banho atrasado, cujo maior atrativo era portar um baseado de boa qualidade. Se não se gabasse, seria melhor. Baixinho, traduzia inglês, português, espanhol e ela apostou que falaria russo se fosse preciso. Não entende o que amiga viu nele, mas suas habilidades de tradutor universal lhe garantiam lugar de destaque naquela roda num apartamento quase vazio no oitavo andar de um prédio onde ela foi parar simplesmente porque queria ir a Londres, mas não tinha dinheiro e a amiga tinha um irmão, que tinha um apartamento, que ficava num conjunto habitacional em Brixton. Ela foi. Era só pegar o 87 em Hyde Park e não pensar muito.

Foi recebida com festa e pressa. Come uma banana aí e vamos. Ela deixou a mochila num canto e se pôs tão decente quanto conseguia depois das muitas horas de viagem. Caminharam pela noite gelada; final de setembro e a amiga explicou que o outono andava sisudo. Poucas pessoas na rua e finalmente chegaram ao conjunto de edifícios que se destacava na paisagem de casas baixas, como espigas esquecidas num despacho.

Atravessaram o jardim de poucas árvores e poucos amigos e subiram no elevador que rangia esquisito. Era ali mesmo o endereço da festa onde ela não conhecia ninguém. Tinha ido porque queria ir a Londres e não tinha dinheiro e a amiga tinha um irmão que tinha um apartamento em Brixton.

A torrada salta. Ela dá um pulo com o coração acelerado e a fome impede que se sinta idiota. Já são uma e meia da tarde. Ela passa a manteiga e morde como se fosse um bicho, de novo e de novo. O telefone toca, mas ela não vai atender nem fodendo, quem faz isso é a secretária eletrônica que agora registra um homem chamando o dono da casa de Barbie. É assim que ela descobre por que o filho do militar da aeronáutica foi se refugiar do outro lado do oceano, em um conjunto habitacional em Brixton, mais especificamente no segundo andar, depois do terraço, por trás da amurada que agora esconde a visão dela.

Nada da amiga. Ela ficou naquele apartamento, onde os colchões espalhados pelo chão serviam de sofá e os convidados de sotaques vários enchiam a cara de um wisky barato, mas que sendo escocês, devia valer alguma coisa. Naquela hora, lembrou da recomendação do Senhor Clinton. Fuma mas não traga, fuma mas não traga. Fodam-se os conselhos de Estado.

A amiga dava pequenos socos nos bíceps do brasileiro. Ela era incapaz de sentir empatia por alguém só porque tinha nascido no mesmo raio de 2 milhões de kilômetros. Tinha passado poucas e boas nas mãos de homens que nasceram muito mais perto do que isso, como na vez em que as duas tinham se safado do velho da caminhonete numa estrada perto do Canyon em Santa Catarina. Ela livrou a amiga daquela vez, mas nem pensar em interromper a conversa com o brasileiro: os dois estavam quase deitados sobre a pia de destroços de amendoim e restos de torrada que ela tinha chegado tarde demais para comer.

A amiga lhe disse para pegar o 87 no sentido contrário. Você vai parar na esquina de casa. Lembra? Direita, esquerda, passa pelo bar, esquerda e já chegou.

Então caminhou como se soubesse para onde. Logo estava dentro do ônibus com aquela sensação de segurança que a gente tem só por estar longe da violência que ouvimos nos telejornais. Ficou atenta apesar de tudo e desceu no ponto certo. Depois direita, esquerda.

Do bar jamaicano sai um odor de cozido de carne com feijões e pimenta. O corpo dela reage e ela tem que olhar, então só olha e desacelera, nem atravessa a rua. Um grupo de homens que fumam e riem e bebem está parado em frente ao lugar. Ela sempre teve simpatia por dread locks, mas passa reto.

Esquerda de novo, sobe as escadas, chega ao patamar do pátio, atravessa o pátio e quando está no segundo lance de escadas alguém a chama. Do you have a lighter? Não, ela não tem, e segue, e ouve os passos, e nunca sentiu o angulo dos olhos tão largo. Ela sabe que ele vem. Pega a chave na bolsa e corre. Sabe que tem que correr. O homem vem atravessando o pátio em direção à segunda escada. Ela olha os três fechos tetra, porra de tetra! Tem que sentir a bolinha e colocar para cima. Ela sente. Insere na fechadura do meio, a principal, tem que ser aquela, e as outras não estarão trancadas, claro que não, nem reza, só abre, e entra, e se vira, e vem o pé: um tênis preto ordinário atravessado na porta, se fosse inverno ele estaria de botas e ela estaria fodida, mas ela não tem tempo de agradecer o outono sisudo. Só bate e bate e bate a porta naquele tênis ordinário de nylon e o pé impede que a porta chegue ao batente e atinja a mão, que na mão ninguém suporta, então ela bate e grita; grita o mais alto que pode e urra que afinal é um prédio comunitário, há vizinhos, alguém vai ouvir; ela urra e bate e diz you fuck! you fuck! até que o pé desaparece, a mão grita e some. Ela fecha a porta e tranca. Escorre do outro lado até sentar no chão e fica. Nem chora. As lágrimas escorrem mas é de susto. Ela fica em silêncio e ouve os passos escada abaixo. Afasta a cortina apenas o mínimo para poder observar, mas só vê a amurada. Ela teria fumado, mas não tinha fogo nem cigarros e agora não podia sair para comprar.

O avesso da caça

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Encontramos a mulher na posição mais confortável possível: mergulhada na água morna da banheira. A espuma é de flores de lótus, ainda que ela duvide que alguém tenha conseguido sintetizar o perfume dessas flores. A taça de vinho está vazia ao lado da banheira. Ela já fumou o do Mestre e agora observa o avesso da lagartixa que caça do outro lado do vidro. A janela é translúcida como a taça porque o Mestre não tem vizinhos, ao contrário da mulher, que tem muitos e portanto se submete a um vidro canelado.

Ele mora em uma casa afastada no meio da mata, com trilha sonora de sapos e grilos. Normalmente, a mulher não usa salto, mas naquela noite sim, porque tinha alisado os cabelos para experimenta-los fora do seu estado natural de rolo. Os saltos e os cabelos combinavam bem com os morangos que ele trouxe até trono de espuma onde agora a encontramos. Tudo bem cafona, mas a mulher não liga. Está simplesmente relaxada.

Abre os olhos. O avesso quase translúcido da lagartixa revela o estômago esverdeado onde terminam as mariposas que são atraídas pela luz do banheiro. Nada é justo e tudo é perfeito: a lagartixa faz um banquete do transe dos insetos. A única chance de se salvar é aproximar-se da luz enquanto a lagartixa mastiga. Todo o resto do tempo, ela caça. E tem unhas. A mulher nunca ia saber que o bicho tem unhas se não o visse do avesso. O corpo se dobra quase ao meio, a cabeça se ergue rápida, nenhum ruído até a presa, poucos segundos em que a mariposa se debate antes de ser engolida. Já é a terceira.

A mulher imagina como cabem tantas mariposas dentro da lagartixa e come mais um morango. Fecha os olhos para sentir o prazer do azedo e se lembra: ela sabia que ele era o Mestre, tinha os cabelos alisados e usava aqueles sapatos talvez pela última vez. Fez isso como um experimento. Funciona. Enquanto ele lhe pagava a segunda bebida, a amiga avisou-lhe ao pé do ouvido que ia embora.

fiz minha vida ali

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A Nádia, ela morreu ano passado. Ainda bem, assim ela não tem que ver o que eu tô vendo. Era tão lindo! As luzes iam chamando a gente pela janela do apartamento, por que a Nádia morava logo ali em frente, bem naquele andar onde tem aquela palmeirinha sofrida, tá vendo? Então, ali mesmo.

Os filhos? Vinham, vinham sim, mas só no fim-de-semana, e a vida da gente tem dias demais nessa idade, sabe? O cachorrinho dela também tinha morrido, logo depois do marido. Mas acho que ela caiu tão rápido foi mesmo por causa do fechamento do Bingo. É muita morte junta nessa idade.

Sabe, às vezes a gente fazia uma ousadia e ia naquele da Sumaré, aquele que tinha uns cavalos enormes. Ela gostava demais e, quando a gente passava embaixo dos cavalos, ela lembrava do falecido e a gente ria de se torcer olhando as intimidades deles. Mas esse aqui, sabe, esse era a nossa casa. Quando abriu nós ganhamos até o VIP, que dava moedas extras pra usar nos islótis. É, minha filha, era tudo em inglês lá dentro, uma beleza. Mas agora, olha só, o lado esquerdo inteiro já foi. Usaram aquela bola que voa. Deve ser de chumbo. Que depressão! Ainda bem que a Nádia não mora mais ali. Ela não ia aguentar tanta tristeza.

 

Se era proibido? Claro que era. mas o Jairo deixava. Era só fazer um boquete nele no fundo do estacionamento e beleza. Ele fazia vista grossa. Se era? Ah, era grande sim, mas a gente é profissional, né? Pelo menos o Jairo era limpinho, então tava tudo certo, porque lá dentro era só luxo e só lucro. A senhora também experimentou? Aqueles com as borbulhas? Gente, que coisa deliciosa aquilo! E aquele tom de roxo? Nunca achei vestido daquela cor. Eu tomava e já ia ficando doidinha. Mas não gastava não, ganhava. Eu só vinha aqui pra ganhar! Vinha já de brilho, né? e sempre de noite, por isso que a gente nunca se cruzou.

Sabe, eu tinha preferência pela roleta. Me dava sorte demais! E eu ficava assim… só na onda daquela bolinha fazendo tzzzzzzzzzzzzzzzzz e depois cle-cléc cle-cléc cada vez mais devagar, até parar. Os caras da roleta eram sempre mais generosos. Vai saber por quê? Ah, e teve mulher também, imagina, uma quase da idade da senhora. Ela só queria uns carinhos na chereca e tomar uma cervejinha, ninguém sabia que ela era chegada em mulher. Coitada, é tudo na vida poder se assumir, a senhora não acha? Ela morava perto do elevado, sabe? Mas vinha aqui porque dizia que era mais bem frequentado. Eu? Ah, eu sou profissional, né, senhora, quem não precisa de amor? Aliás, se a senhora precisar…

 

Vai virar um shopping. É o que dizem. Mas agora os shoppings só contratam essas empresas grandes de segurança e eu tô fora já de saída. Precisa ter ficha limpa pra isso, ou ter alguém que limpe a sua ficha e eu não tenho. Aqui era bem tranquilo. Fiquei até amigo dos meganha que vinham à noite, sempre no horário das meninas. Cheguei a liberar o cantinho do boquete pra eles! Veja bem como eu não sou rancoroso, e tanto que os caras me bateram, senhora… mas não eram os mesmos caras, sei lá, a gente precisa esquecer do que não presta nessa vida, não acha? Só não vou conseguir é esquecer aqui do Bingo Augusta. Era lindo demais não era, senhora? Aquele neon vermelho na fachada… Foi o melhor emprego que eu já tive, as melhores gorjetas, com certeza. E além disso, eu gosto de conversar com gente, sabe? O povo às vezes saía deprimido, ou bêbedo, mas eu não deixava não. Fazia sentar naquele banco branco que vão destruir já já. Lembra? Na época tinha umas almofadas douradas com aqueles chucalinhos nas pontas. Então o povo sentava ali e falava, falava… Conversei até em alemão, senhora, imagine? Teve um que capotou e depois eu que carreguei até o Emiliano. Mijou nas calças o pobre, e mijo de rico cheira igualzinho de pobre, senhora. É foda. Agora acabou pra todo mundo.