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Ela Volta

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Ele está parado no terceiro de três degraus e observa o portão, a trilha que leva ao portão, o mato que ladeia a trilha (precisa cortar o mato). Ela volta. Ele sabe que ela volta, só não sabe quando. Então desce o segundo e o primeiro degraus olhando para baixo. Ele está atento porque a vista começa a falhar, mas só de perto, que de longe ele ainda enxerga bem.

No quintal, como todos os dias, estão os pesos e o cachorro. O bicho dorme fora da casa, ela não ia gostar, mas ele não tem paciência de dar banho: o bicho fede, o bicho dorme fora da casa.

Os eucaliptos cresceram e agora rangem como mil portas em torno dele. Ele não fica mais nervoso com isso: observa os eucaliptos, o vento, as pinhas que caíram e que ele deve evitar ao caminhar sem sapatos, como faz todas as tardes quando vai até o portão. É muito ruim tirar os espinhos dos pés, eles são miúdos e às vezes vêm com farpas que entram na carne. É pior agora que ela não está: ele não tem pinça, nem delicadeza. Se cortar com o canivete sangra. Sangrou, ele amarrou um pedaço de bandagem que comprou na farmácia. Sobrou bandagem, ela ficou pendurada para fora da pia da cozinha como uma língua.

Ele não faz a cama porque ela volta, e só ela sabe fazer a cama direito.

Os pesos ficam parados esperando por ele entre dois tocos de eucalipto que ele arrastou e posicionou no lugar exato desenhado na terra com dois xis, um à direita, outro à esquerda. Ela gostava de sentar no segundo degrau, e pintar as unhas dos pés, e observar como ele ia ficando bom naquilo: os pesos subindo e descendo, subindo e descendo até serem de novo encaixados nos rasgos que ele abriu na madeira com o formão que ela comprou. Fica mais seguro assim, ela disse. E ela entende de ferramentas porque o pai dela tem uma oficina, ela trabalhou na oficina, então ela foi até a loja de ferramentas e trouxe pra ele com uma fita vermelha amarrada.

Ela volta. O pai dela não quer que ela volte, nem a mãe, mas ela volta. Enquanto isso ele vai ficando cada vez mais forte.

Hoje faz frio, mas logo ele se aquece porque aprendeu a pular corda. Está ficando cada dia um pouco mais forte e como se passaram muitos dias, está muito mais forte. E o plano é esse: se ele ficar bem forte, ele não vai ter coragem de bater nela. Ela volta e ele fica ali, bem forte assistindo ela tirar a roupa, deitar na cama, se masturbar e contar do último cara com quem trepou. Um outro cara qualquer. Mas ele não vai até ela e não urra e não esmurra nem ela, nem a parede, nem o espelho. Ele ficou forte demais para isso. Ele cumpriu a cada dia a rotina corpo-mente que comprou na banca de jornal; aquela foto com alguma merda shaolin na capa.

Ele nunca foi a uma academia, então não sabe se é shaolim mesmo. Só quer ficar mais forte e pensar diferente para quando ela voltar.

Deita no tronco que colocou na horizontal. Precisou do Jonas para deixar aquilo no jeito e o Jonas disse, vai ficar fortinho, e ele disse vai tomar no cu, Jonas. Ele não bebe mais. Nem com o Jonas. Estava escrito na revista shaolin para ele não beber e comer ovos todos os dias. Ele come ovos orgânicos que a moça entrega às terças-feiras. Não dá para comer a moça dos orgânicos, ela é magra demais, mas dá para comer os ovos. Então ele espera. (Bate punheta para esperar, fazer o quê?)

Ela bebe. Ele não gosta quando ela bebe, mas gosta porque ela fica mais louca e mais linda e inventa coisas, tipo trepar no meio dos eucaliptos. Ela gosta de abraçar o eucalipto e ele come ela por trás, mas os braços dela ficam arranhados e ela reclama que foi ele, mas não foi ele e eles brigam. Ele não gosta e gosta de brigar com ela. Gosta porque depois eles fazem as pazes.

Na verdade não gosta mais. Ela foi embora e agora está demorando muito.

Ergue o peso, abaixa. É dia de aumentar a carga e ele já tinha previsto, aliás, estava escrito no programa que ele está seguindo (muito bom isso de ter um programa). Tem um amigo que vende os pesos para ele. O amigo trabalha no ferro velho e se chama Lauro, mas o nome dele não importa, importa é que ele vende barato e sempre diz para ele não desistir, para ele ter paciência que ela volta, e fala que ele está ficando mais forte e mais bonito, e pergunta se ele não está bebendo. Ele diz que não bebe. É verdade, mas é difícil.

A revista shaolin disse que é preciso controlar os desejos e que desafio é bom, mas ele não está nem ligando para essa coisa de desafio. Está apenas seguindo o programa sem ninguém encher a porra do saco dele.          Oito, nove, dez. Só dez de cada vez e é recomendado descansar. Então ele fica ali deitado assistindo o céu cada vez mais azul e os eucaliptos varrendo aquele azul tão celeste. Quando tem nuvens, parece que os eucaliptos é que fazem o vento para elas passearem. O vento alivia o suor, especialmente na hora das pausas, quando ele se levanta, porque depois da terceira série de exercícios é preciso parar e mudar de movimento. Fazer supino por exemplo. Ele gosta da palavra supino porque parece algum tipo de sorvete.

O cachorro late, o portão range. É diferente do ranger dos eucaliptos. Ele tem certeza porque quando ela foi embora, ele foi até lá e testou várias vezes, levando o portão para lá e para cá. Fechou os olhos e memorizou aquele som e não colocou mais óleo nem nada no maldito portão. Queria que ele tivesse sempre o mesmo som de quando ela foi embora. Ele acha que o som da partida e o do retorno têm que ser iguaizinhos. Ele lembra que o positivo e o negativo se anulam e assim vai dar para começar do zero. Foi algo que aprendeu na escola e não sabe por que raios isso ficou na memória.

Ele tem poucas lembranças da escola e muitas lembranças dela.

O portão rangeu. Ele acha que alguém entrou porque agora está aberto, mas não vê ninguém. O cachorro ficou manco e tem preguiça. Fica só com as orelhas em pé e rosna. Ele não queria machucar o cachorro, mas machucou. Ele enxerga bem de longe, mas não a vê. Ela é esperta, mas dessa vez ele está muito mais forte. Ele não vai levantar para procurá-la, nem vai ficar ofegante. Vai fazer como aprendeu na revista shaolin e decide terminar os supinos devagar, como um sorvete. O portão não range mais e a paciência derrete pouco a pouco. Ela está dentro do terreno. Como ele sabe?

Ele sabe porque ela volta e ela não aguenta mais do que esse tempo, mais ou menos. Ela é como o programa da revista shaolin, só que agora mais avançado, com fases.

Ele decide ir até o portão para fechá-lo. Poderia ter sido o vento que abriu, mas não foi. Foi ela.

O cachorro o segue, ele pára no meio do caminho e acaricia o cachorro. Na volta, o vento é mais forte. As primeiras nuvens começam a aparecer. Ele sabe que logo a casa vai estar quente, quase quente demais para aguentar, mas ela vai estar lá. Então ele quer voltar devagar. Não quer voltar correndo para a casa, até porque não ouviu o barulho da porta que ele conhece tão bem quanto o do portão. Decide ladear o terreno e aproveitar para ver se a cerca está toda de pé. É importante manter a cerca de pé, principalmente perto das bananeiras. Ele sabe que os vizinhos roubam as bananas. A cerca dificulta, mas não impede.

Ele ainda está longe das bananeiras quando ouve um ruído no mato e se volta.

São passos, os passos dela, e ele acha que viu um vulto entre uma árvore e outra, mas não tem certeza. Ele continua como se nada estivesse acontecendo. Expira no dobro do tempo da inspiração, como aprendeu a fazer e fica atento. Nada mais se mexe, mas ele está atento.

Ele sabia: de novo romperam a cerca, os filhos da puta! Ele dá um passo à frente para ver como vai remendar, agacha, afasta o mato e de novo escuta o ruído atrás de si. Ele se volta e consegue ficar parado por uns instantes, respira daquele jeito quatro, cinco vezes, mas não aguenta: caminha, quase corre, corre!

E cai, porque a dor é lancinante.

O troço tinha a grossura do cano que ele instalou do lado de fora da casa, só que era puro músculo. Ele sentiu bem por baixo das sandálias e pôde ver o bicho se esgueirando para longe em zigue-zague, o filho da puta!! Morde o braço com toda a força porque não quer urrar, não quer que ela vá embora, não quer que ela pense que ele se transformou em algum tipo de animal selvagem enquanto ela não estava. E o grito seria gutural, aliás, é gutural, só que fica ressoando por dentro do corpo enquanto a dor arde como uma faca que entrasse pela panturrilha, derretesse e subisse prateada, congelando órgão a órgão até chegar aos pulmões. A respiração quer parar, mas ele a domina. Ele esta muito mais forte agora e vai conseguir chegar na casa. Ele ouviu o ruído da porta. Foi ela que chegou, e bem na hora de ajudá-lo.

Tem que arrastar a perna, e os degraus, eles parecem intransponíveis porque a vista está turva e tudo vai ficando lento. Parece que ele viu o casaco dela, aquele que cobria só os braços. Está sobre os pesos. Ele não confundiria, porque é o casaco predileto dela e é vermelho, mas tem que se concentrar na perna, porque quer entrar e quer encontrar com ela.

Por um instante pensa na cobra e observa o terreno em busca do bicho. Então vê o vulto dela. Está se movendo entre os eucaliptos, brincando com ele como costumava fazer porque ela não sabe a dor que ele sente, e ele não consegue gritar para avisar, nem que tente, ele apenas assiste o corpo dela indo de uma árvore a outra, de um canto a outro, chamando vem, mas ele não consegue nem entrar na casa nem ir atrás dela. Está paralisado e não pode mais brincar.

Ela ganhou, mas ele também ganhou, porque ela não aguentou sem ele, e voltou para casa.

Ouve um baque. É estranho ouvir o baque do próprio corpo no chão, é estranho enxergar todo o quintal de lado e sentir o cheiro da terra. Ele sempre sente o cheiro da terra, mas talvez não tão de perto, talvez não com a boca aberta. A revista shaolim disse para ele não respirar com a boca porque diminui a energia, mas ele não consegue fechar, e, apesar da tontura, os olhos ficam abertos o suficiente para ele ver as unhas pintadas dos pés dela se aproximando. Cuidado com a cobra, amor.

Mas isso, ele não sabe se chegou a dizer.

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Ela e eu_1

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Entrei no galpão da Dona Cida costureira. Era escuro e fundo. As fantasias da companhia inteira tinham sido penduradas junto ao teto num estranho sistema de varais. Vistas de baixo, as saias formavam grandes flores amarelas, vermelhas e as mais compridas, as azuis, que seriam usadas pelas meninas mais velhas, eram túneis por onde eu poderia mergulhar e furar o telhado.

Minha mãe pediu que eu me sentasse numa banqueta junto à porta e foi ter com Dona Cida. Voltou com uma cara de desconforto e o olhar triste que eu já conhecia. “Qual delas é a minha?”, perguntei ansiosa, “a da flor de lótus”, ela disse. “Isso eu já sei” e desviei o olhar para Dona Cida que vinha caminhando lá do fundo com um mirrado conjunto verde piscina composto de uma única camada de musselina presa com uma flor branca.

Tive vontade de rasgar o paninho, mas a costureira foi mais rápida e me levou até o provador, de onde eu saí instantes depois, meu corpo magro sem um único adereço a não ser aquela coisinha pobre que “tinha um ótimo caimento”.

Minha mãe quis me consolar. Disse que a flor de lótus era a mais linda e contou algo sobre a Índia de que eu não me lembro. No banco de trás, chorei. Eu nem tinha idade para acompanhar minha mãe no banco da frente, mas ouvi quando ela gritou coma Professora Beatriz no telefone. E entendi tudo.

 

by

me tenta
que eu te tanto
até que tonta,
tombo.

Vista

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A barriga está encostada na pia. Começa pelos olhos e desloca de um lado para outro a película transparente. Com sorte, as lentes estarão no lugar, mas não, hoje não é um dia de sorte; é preciso levantar a pálpebra e buscar com um olho só (o outro) a maldita coisa dobrada no canto do fundo da puta que o pariu. A lente saiu de órbita, ela se irrita, tenta não sair junto. Evitou usar lentes por muitos anos, cedeu aos trinta e oito. É míope desde os dezenove, quando teve um stress ocular de tanto ler; e tanto lia para esquecer o primeiro amor (e a primeira foda), quando qualquer sentido emprestado parecia servir. Continua buscando: o amor, o sentido e as lentes. Tenta entender por que se dobram. Está quase certa de que foi aquela coçada em busca de alívio depois de horas diante do computador, e ela sabe que não é bom os míopes usarem lentes diante da tela, ela pagou a consulta do oftalmologista, ela sabe que enxerga bem de perto e que deveria tirar as lentes para trabalhar. Pára por um instante, tentando sentir onde está a dita. A imagem no espelho, embaçada. Lembra-se do preço das lentes e da otimização sovina: a lente diária deve ser reaproveitada no dia seguinte; assim ela se sente inteligente em algum canto da existência. Dizem que é inteligente, mas ela tem se sentido idiota. Esquece compromissos, pula e-mails fundamentais na caixa de mensagens, não lembra os enredos dos livros que ama. Leva solavancos quase diários dos colegas de trabalho, que ainda a respeitam por ela ser inteligente. Finge um certo charme nos esquecimentos e procura compensá-los com comentários precisos e quase literários, mas sabe que não é suficiente, e sabe que alguns colegas também pensam assim. (Foda-se). Neste momento ela só quer ter mais um olho, encontrar a lente e partir para um sono profundo e sem sonhos. Está cansada das interpretações da terapeuta argentina e cria uma simpatia instantânea: se achar a lente em menos de dois minutos, vai pedir alta. Tenta uma técnica de localização intuitiva do tipo “respire e sinta…”, como andou praticando na ioga . Respira cinco vezes. Aposta que nenhum iogue indiano usa lentes. Parte para uma técnica menos meditativa e mais esfregativa, mas a lente parece estar cada vez mais longe. (Com olho só, é foda). Lamenta não ter praticado a vesguice tanto quanto as amigas no pátio da escola, (tinha medo que assoprassem seus olhos e ela ficasse assim para sempre). Volta a culpar o duplo uso das lentes diárias pela desgraça e, num arroubo eco-matemático, começa a calcular se a economia de materiais (da lente e da embalagem plástica redondinha) compensa o carbono que ela gasta até a escola de ioga. Sente-se culpada por ir de carro até a ioga, não é longe, também não é perto. Usa etanol, mas sabe que é como rezar um pai nosso no fim do dia e acreditar que não vai para o inferno. O mundo é cada vez mais quente, a noite é quente e ela só precisa de um pequeno milagre. Tenta ser positiva. Imagina a lente mirando para dentro de si e descobrindo todos os mistérios da alma. Pensa que o custo mensal das lentes é cerca de um décimo da terapia e imagina se suportaria a coceira no olho, caso isso a livrasse de todos padrões repetitivos. Sabe que está pirando e pira ainda mais. Pensa que é mais fácil resgatar um diafragma de dentro de si do que uma lente, apesar dos formatos parecidos. Ela usava diafragma quando era casada, mas não usava lentes porque era um pouco menos necessário parecer bonita. Lamenta ter perdido os óculos de que tanto gostava, lamenta ter se perdido do ex-marido, desiste do resgate por um instante. Fecha os olhos. A vizinha do apartamento de cima toca a descarga. Imagina aquela água toda varrendo a lente, a coceira e os pensamentos, num tipo de descarga das almas. Senta-se sobre a privada fechada e por via das dúvidas, dá a descarga. Pensa que jogar soro pode ser uma boa ideia, mas não é preciso: o olho lacrimeja e a lente, afinal, começa a se deslocar.

ritual (v.1)

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A barriga encostada na pia. Começa pelos olhos e desloca de um lado a outro a película transparente. Com sorte, as lentes estarão no lugar, mas às vezes é preciso levantar a pálpebra e buscar (consequentemente com um olho só, o outro) onde estará a maldita dobrada no canto do fundo da puta que o pariu. Lamenta não ter praticado a vesguice tanto quanto as amigas no pátio da escola, (sempre teve medo que assoprassem seus olhos e ela ficasse assim para sempre). A parte do rímel é fácil, algodão, tecnologias bifásicas e está resolvido, mas ela sempre enfia uma nova etapa depois disso, um novo sabão, um creminho removedor de algum resquício da poluição ou da idade. Mas o pior é a bendita pia. Ela jamais desconfiou que teria que apoiar a cabeça na torneira com os olhos fechados e se orientar pelo som para ter certeza de acertar a água dentro da área quadrada da pia modernosa, pequenina mas ordinária, sugerida pela arquiteta (que certamente não lava o rosto tão bem quanto ela). E não adianta: entra sabão no olho, arde, ela se apressa e mancha a toalha com os restos invencíveis de rímel (maldita tecnologia bifásica). A água sempre escapa, formando uma poça no tampo de ladrilhos coloridos, ou quase sempre, o que torna certas noites muito mais especiais.

O Físico

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Sentou-se na varanda. A casa não tinha sinal de vida apesar do encontro marcado, a fome corroía o estômago e a dignidade. Já eram duas da tarde e ele estava ali desde as dez da manhã. Conversou com vizinhos, ninguém sabia de nada. O jardineiro fazia suas tarefas, impassível: ao meio dia, simplesmente abriu a marmita que tinha sido feita por sua adorada esposa e comeu sentado debaixo da mangueira. O físico sentiu por ele uma inveja de bicho. Seria capaz de avançar na jugular do homem por aquela marmita.

Ficou assistindo aquele ser humano compacto de chapéu de palha mastigar cada pedaço de carne, mas nem isso foi capaz de distrair sua raiva: Nora o havia deixado ali, esperando. No telefone, ela havia pedido que ele raspasse todos os pelos do corpo, o que agora provocava uma coceira generalizada, que chegava a incomodar mais do que o suor de janeiro.

Nora… lindo nome para uma mulher linda.

Não sou linda e você sabe, mas aceito o elogio… E você? Faz o quê?

Sou físico.

Hum, físico…

E medindo o interlocutor com o olhar, ela recolheu mais uma taça da bandeja que deslizava por perto. Ele era apenas isso, o homem-interlocutor da vez. Podia ter sido qualquer outro.

Percebeu logo que Nora era uma mulher sofisticada. Vestia um casaco longo e acetinado que escondia seu corpo, mas deixava adivinhar que ela não era exatamente um padrão de beleza ou de juventude. Os cabelos curtos davam-lhe um ar modernista que o deixou curioso, mas, no fim das contas, abordou-a porque era a pessoa possível em meio a tantos casais facebookianos celebrando a aliança recém selada.

E vários brindes foram erguidos, e o jardim estava enfeitado com uma trilha semi-artística de pequenas lâmpadas que revelavam poemas, fotografias e caixas contendo o enredo de Maria e José, amor perfeito até nos nomes; a união que todos aguardaram porque tinham certeza que, se alguém merecia um casamento de filme, essa pessoa era Maria: radiante de vestido branco, arranjo de flores e tiara no cabelo, um pouco velha para esse tipo de fantasia, mas também os velhos merecem as suas fábulas.

Maria conheceu José em Bonito, boiando nas águas mornas dos rios que ainda insistem em ser simplesmente rios, com peixes, e bichos e margens. A caixa onde eles pararam mostrava o casal à beira de um lago com cachoeira ao fundo. Sorrindo, o filho de Maria, fruto do casamento anterior, mostrava a língua como convém a um adolescente.

Nora tirou o casaco-entidade pesadíssimo que o Físico passou a carregar enquanto caminhavam pelo jardim.

Toma-la foi como domar um bicho muito grande e muito forte: uma onça ou um puma. Nora era o topo da cadeia alimentar e deu pra ele não ali, é claro, mas num motel escolhido por ela, com espelhos no teto, mas sem vulgaridades. Comeram lagostins, é chavão, ela disse, mas são deliciosos. E ficaram ali até de manhã, quando ela o levou consigo pra casa, um animal exótico e perdido depois do longo abrigo de uma bolsa-sanduíche na Alemanha e um doutorado com louvor em uma especialidade que jamais seria útil na América Latina: física das partículas, fricção nuclear, algo que ela não conseguiu entender, mas era pesquisa básica.

Coitado, era o que diziam os olhos dela enquanto bebia e ouvia o enredo da vida dele, uma mão na frente e a outra também, tentando emprego numa universidade federal.

Mas o Físico tinha alguns requisitos importantes para passar do motel ao quarto e do quarto à moradia de Nora: era inteligente, alto, praticava a corrida, era um homem esclarecido e caía muito bem nas festas onde ela angariava fundos para o Instituto. As pessoas o achavam fascinante, mas ele era mais do que isso.

Nora se deu conta quando voltou de uma viagem de negócios à França. Ele tinha promovido uma “pequena festa” que consistia em vinhos da adega dela, queijos da geladeira dela, uma cama desarrumada de ambos os lados e resquícios indicando que certamente mais de quatro pessoas haviam sido convidadas. Um pente de cabelo indicava que a mulher com quem ele tinha estado não era banal, não era uma piranha, era um pente, desses que se usam em penteados sofisticados; e ela rememorou até encontrar uma amiga em comum que preenchia todos os requisitos. Vasculhou em busca do celular, cheirou travesseiros, abriu o computador e quando estava ali, sozinha diante da máquina teve que admitir: Nora estava apaixonada.

A partir daí a vida do físico foi sofrendo pequenas e definitivas transformações. Ele já não podia dormir com ela todos os dias, mas no escritório, tinha que acordar quando ela acordava e dormir dentro das mesmas condições, tinha que servir vinho para ela na cama, devia estar em casa a tal hora para que pudessem falar ao telefone, e no clube, ele tinha certeza, era vigiado por um tipo de lacaio.

O físico gostava de cavalos e havia mulheres de tardes desocupadas que também adoravam montar. Foi numa dessas baias que ele foi pego, ou melhor, não foi pego porque oficialmente não era vigiado (o físico, imagine, era um homem independente, esclarecido e livre, podia circular pelo clube como quisesse). Mas a partir dali foram pequenos serviços na casa, comer na edícula e o resultado do concurso pra Federal que não saía.

Deixou a casa com a roupa do corpo e mais um pouco. Fez questão de não levar dela nenhum presente. Era uma sensação estranha porque, acima de tudo, ele gostava de Nora e gostava da física e para ele, se fosse possível ficar ali, no jardim de inverno estudando e enviando seus papers a vida toda, tudo estaria bem. O físico era um sujeito simples que amava as verdades matemáticas que regem a matéria. Era só isso. Ele não precisava nem de outra mulher, na realidade, trepou porque os cavalos trepam e a mulher, afinal, o havia perseguido, e ele tinha sim um pau grande de que gozava como gozava de estudar, de tomar sol no gazebo, dos cachorros dela e de viajar para a Toscana, coisa que não deu tempo de fazer.

Ficou no ponto esperando o ônibus junto com os empregados que largavam o serviço e o observavam desentendidos. Um deles ofereceu um cigarro que ele aceitou. O homem sabia, e ele sabia que o homem sabia. O Físico acabou indo para uma pensão no bairro Costa Pinto junto com seu bem-feitor, que era motorista dos Lins de Almeida Prado.

Ficou na pensão enquanto o dinheiro deu, depois foi pra perto da rodoviária e o concurso, ele não ganhou, afinal, não foi na Conferência, não fez média com os grandes acadêmicos que já não conhecia porque estivera longe e que o consideravam aquilo que ele era: um homem bonito demais, especializado em física das partículas (e agora pagando um hotelzinho com mirradas aulas de inglês).

Foi embora. Do hotelzinho também. E dessa vez ninguém no ponto de ônibus lhe ofereceu um cigarro. Pensou em fugir do país, não há emprego aqui para uma pessoa desse nível, disse um colega seu que ocupava um alto cargo em um laboratório privado. E refez o cv na lan house da esquina do Hotel Maravilha ouvindo o funk de Mc Carol, mas acabou salvo foi por um bico de estoquista que já vinha com almoço.

Nora ligou quando ele estava no intervalo do turno. Trabalhava num depósito enorme de uma empresa de logística e as empilhadeiras dificultavam que ele escutasse. Se encontraram num restaurante tradicional de comida grega que ele adorava e ela sabia. Fartaram-se, treparam, ela o alimentou de comida, vinho, sexo e um colchão de molas, mas o Físico havia retrocedido muitas casas no jogo de Nora e acordou aturdido. Sonhou que estava preso em um trem alemão onde as longas palavras que descreviam a próxima parada passavam rápido demais para serem lidas. Pegou suas roupas e deixou Nora dormindo, porque preferia comer numa bandeja de alumínio a cair de novo; preferia comer a Dona Regina do Hotel Maravilha, que gemia honestamente, a enfrentar os vidros de perfume exclusivos perfilados na prateleira sobre a pia.

Aquilo não era para ele. Ele sentia falta, mas… não era para ele.

Aprendeu em seguida que nunca se deve trabalhar em um centro de logística de objetos de alta tecnologia depois de uma ressaca explícita da qual se emerge com ânsia e óculos escuros. Pode ser a oportunidade perfeita para que os confiáveis funcionários antigos te remetam a culpa por algum desvio de produtos e sirvam a tua cabeça com um laço rosa e uma etiqueta de otário; e o chefe nunca vai imaginar, porque, o Jean e o Luiz Carlos, veja, trabalham com a gente há anos.

Você vai prestar depoimento na delegacia, vai voltar para o hotel que já não pode pagar com o rabo entre as pernas e vai lamentar profundamente que a sua mãe idosa tenha morrido há três anos e a casa dela tenha sido vendida. E você vai sim acabar ligando para a mulher que pode te oferecer um prato, um vinho e um colchão de molas e vai ficar na porta dela esperando no horário marcado para descobrir às duas e meia que ela não vem, nem sequer está no país. E então você vai esconder sua mala pesada dentro do latão de lixo vazio para pegar o ônibus e vai tentar achar o Jairo, que você já nem sabe se mora na Alameda Dias Gomes, mas que te socorreria, pra então descobrir que o Jairo? Ah, voltou pra Salvador, e então você vai voltar na mesma linha de ônibus para chegar na varanda de Nora e descobrir que, sim, naquele dia, exatamente na sua ausência, o lixeiro passou.

Poeminha no ponto de ônibus

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Milho que ninguém atira
Pão que ninguém aceita

Penas cinzentas          penas foscas
Olhos vermelhos         ciscos pontas
Patas      garras      bactérias      moscas
Amarela vida
Restos
Pombas